Separação... palavrinha difícil de se lidar. Segundo os bons e velhos romanos, seu significado é desunir, dividir. É mesmo. Não há quem não se sinta metade do homem ou da mulher que era até então, quando – após anos e anos de tristezas, alegrias e aborrecimentos compartilhados – se vê novamente a sós no mundo. Recomeçar uma nova vida nem sempre é fácil. Alguns criam manias, como ouvir “Stand By Me” na versão dos Beatles até os ouvidos praticamente caírem. Outros fecham-se sobre si e evitam qualquer tipo de contato humano. Há ainda os que vão à forra, vingando-se do sexo oposto ou bebendo a là Nicolas Cage em “Despedida em Las Vegas”. Todavia, independente da reação, o mais comum é sentir-se deslocado do restante do mundo. Para ajudar os perdidos na Estrada do Relacionamento – e sim, eu sou um de vocês – resolvi criar este blog. Não é lá grande coisa, não sei mais do que a maioria de nós. Mas é melhor do que nada. E se isso me ajudar a ouvir outra música além de “Stand By Me”, melhor ainda.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Você era diferente na foto



O homem é um animal sociável. Precisa da companhia de seus semelhantes. Para o homem solteiro, isso significa qualquer mulher. Na Era Digital, a internet facilitou muito a busca por contato humano. A um clique estão dezenas de sites de relacionamento. Descobri que, a menos que você seja homossexual, o Bate-Papo do UOL é furada. Mas tem sites legais, como o Badoo. No Orkut e no Facebook dá pra conhecer um monte de meninas também. O problema desse tipo de contato é que nem sempre é possível saber com que você está falando. A anjinh@_19a pode ser Maria Deusdete, 42 e sem dentes. Mas sem muitos recursos – cinco anos de casamento acabam com a vida social da gente – comecei a usar a internet para conhecer garotas. Deus sabe que muitas vezes encontrei meninas legais de verdade. Algumas eram bem diferentes do que eu havia imaginado ou visto (maldito Photoshop). Mas também houve as roubadas absurdas.
Não vou citar nomes, mas uma vez comecei a conversar com uma garota bem divertida. Morávamos na mesma cidade, trocamos fotos e marcamos um encontro depois de uma semana. Sim, ela era bem bonita. Até demais para estar sozinha, devia ter percebido logo de cara, mas vá lá. O tal encontro seria na sexta-feira, às 20h e ela fez questão de que nos encontrássemos na frente do cemitério, que era perto da casa dela. Não achei estranho, é um excelente ponto de referência. Parei o carro e lá estava ela num banco. Estava vestida de preto, o que não é incomum. Perguntei se ela queria ir a algum lugar para bebermos alguma coisa e conversarmos e ela disse para ficarmos um pouco lá mesmo. Aceitei, nada muito absurdo. Era noite, o cemitério fechado, pouca gente por perto, achei que ela queria privacidade. Começamos a conversar e ela me revelou que era gótica.
Já havia feito uma reportagem com góticos, não achei nada demais. Então ela começou a contar que idolatrava a morte. E como. Bom, sou um homem da ciência, da razão, um cético nato, não acredito em nada relacionado ao sobrenatural. Mas aquela menina começou a me assustar. Ela não tinha outro assunto e eu não tinha outra escapatória a não ser ouvir. Eu já disse que ela era linda. Em resumo, descobri que existem cinco tipos de rituais fúnebres, como os cadáveres apodrecem, o que fazer para invocar os espíritos, como é legal (para ela, não acho nada legal isso) morrer. Agüentei coisa de uma hora. Olhava para o relógio e de tempos em tempos insistia para irmos para outro lugar. Ela pedia mais tempo e falava mais sobre a morte, em como o sonho dela era conhecer as catacumbas de Paris, sobre um cemitério vertical não-sei-onde, etc.
Ela deve ter percebido – já que eu olhava desesperado para o carro e me imaginava cantando os pneus para sair dali – que eu não estava gostando muito e finalmente começamos a nos beijar. Ela era doida, mas linda, já expliquei. Foi então que ela fez a proposta que acabou com todas as nossas chances. Ela queria invadir o maldito cemitério. Está certo que ela me prometeu uma coisa, mas nem aquilo me convenceu. Eu que não vou invadir cemitério nenhum. Ela insistiu por alguns minutos e, quando disse que não, nunca, jamais, nem pagando, nem a pau Juvenal, ela decidiu ir embora. Confesso que fiquei um pouco chateado, mas era o melhor a fazer. Ainda penso na “doida da morte” (a chamo assim desde então). Tenho dúvidas se agi certo, se não deveria ter invadido o tal cemitério. Afinal, sempre digo a mim mesmo que só se vive uma vez.