Separação... palavrinha difícil de se lidar. Segundo os bons e velhos romanos, seu significado é desunir, dividir. É mesmo. Não há quem não se sinta metade do homem ou da mulher que era até então, quando – após anos e anos de tristezas, alegrias e aborrecimentos compartilhados – se vê novamente a sós no mundo. Recomeçar uma nova vida nem sempre é fácil. Alguns criam manias, como ouvir “Stand By Me” na versão dos Beatles até os ouvidos praticamente caírem. Outros fecham-se sobre si e evitam qualquer tipo de contato humano. Há ainda os que vão à forra, vingando-se do sexo oposto ou bebendo a là Nicolas Cage em “Despedida em Las Vegas”. Todavia, independente da reação, o mais comum é sentir-se deslocado do restante do mundo. Para ajudar os perdidos na Estrada do Relacionamento – e sim, eu sou um de vocês – resolvi criar este blog. Não é lá grande coisa, não sei mais do que a maioria de nós. Mas é melhor do que nada. E se isso me ajudar a ouvir outra música além de “Stand By Me”, melhor ainda.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Diga-me o que tu diriges...

Não é ele, mas é irmão gêmeo. Só falta o amassado na porta do motorista

Não é possível ser solteiro sem carro. Não dá, pura e simplesmente. É como tentar atravessar o deserto sem levar água. Minha ex-esposa ficou com nosso carro. Era um Gol G3 2005 a álcool original de fábrica. Eu amava aquele carro. Mas eis que me vi separado e a pé. Vivi bem com isso por umas 48 horas e vi que era impossível continuar daquele jeito. Meu irmão é um sovina dominado pela esposa e raramente me emprestava o carro dele. Tem a ver com o fato de eu ter levado algumas multas, mas elas foram devidamente pagas, garanto. Mas nada melhor do que um carro para chamar de seu, sem dividi-lo com ninguém a não ser a financeira que possibilita sua posse. Então saí ao mercado. Posso dizer que não sou virgem quando se trata de carros: trabalhei dois anos com venda de automóveis. Mas eis que sempre vi um veículo como meio de transporte, uma maneira de ir do ponto A ao B em segurança e rapidamente. Agora havia mais um fator a considerar: o carro deveria servir também para atrair mulheres e dizer que eu não era um fracassado total.
É aí que começaram os problemas. Tinha 28 anos na época. Não podia ser um carro de moleque, um Opalão V6 azul-metálico. Nem um carro de velho, um Corsa prata com tanto charme quanto um Fusca em 1980. Tinha que ser algo para afirmar mais ou menos isso: “está aí um cara que sabe quem é, não tem medo das tendências, mas é clássico o suficiente para fazer isso com bom gosto”. Ou eu imaginava que deveria ser. 
Como jornalista aprendi que “vox populi, vox Dei”, ou seja, a voz do povo é a voz de Deus. Decidi fazer uma pesquisa de campo. Nada exagerado, perguntei para algumas mulheres solteiras que carro elas achavam legal. Depois de todas afirmarem que não ligavam para carros, elas foram unânimes em apontar modelos que estão – e estarão até saírem de linha – bem além do meu parco poder aquisitivo. Em português: não podia comprar nada que custasse mais de R$ 6 mil e esperava que elas me dissessem que amavam veículos do início dos anos 90.
Gosto de pensar que sou um cara esperto. Todo mundo gosta. Mas meu desespero foi crescendo e caí no golpe mais velho do mundo: o da família em apuros. Uma tia minha em situação de falência total me procurou oferecendo um Escort 91 verde-metálico. Estava desesperada por se livrar do carro e levantar alguma grana. Não era o que eu queria, mas pensei comigo: “pego esse carro e depois troco”. Sim, é possível trocá-lo ainda. Mas só se for por uma bicicleta sem rodas. Confiando na pobre tia, descobri tarde demais que o carro era original de fábrica e que foi lá que ele recebeu sua última manutenção. Ao trocar uma mangueira do radiador, devido a um furo, a bomba de água saiu na mão do mecânico. Isso foi só o começo. Fiz a suspensão, o motor, a lataria e o estofamento do carro. Gastei tudo que tinha. Isso antes do funileiro me dizer que ele estava rachado ao meio devido a alguma batida que sofreu. Desisti. Agora estou a pé. Prometi jamais confiar em qualquer se que tenha relação co-sanguínea comigo e estou a procura de um novo carro. Ele nem precisa dizer nada, só andar, que já é bem mais do que o outro fazia. Ah, sim. Dei o Escort para meu pai. Ele raramente fala comigo depois disso.