Separação... palavrinha difícil de se lidar. Segundo os bons e velhos romanos, seu significado é desunir, dividir. É mesmo. Não há quem não se sinta metade do homem ou da mulher que era até então, quando – após anos e anos de tristezas, alegrias e aborrecimentos compartilhados – se vê novamente a sós no mundo. Recomeçar uma nova vida nem sempre é fácil. Alguns criam manias, como ouvir “Stand By Me” na versão dos Beatles até os ouvidos praticamente caírem. Outros fecham-se sobre si e evitam qualquer tipo de contato humano. Há ainda os que vão à forra, vingando-se do sexo oposto ou bebendo a là Nicolas Cage em “Despedida em Las Vegas”. Todavia, independente da reação, o mais comum é sentir-se deslocado do restante do mundo. Para ajudar os perdidos na Estrada do Relacionamento – e sim, eu sou um de vocês – resolvi criar este blog. Não é lá grande coisa, não sei mais do que a maioria de nós. Mas é melhor do que nada. E se isso me ajudar a ouvir outra música além de “Stand By Me”, melhor ainda.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A traição



Não há coisa pior do que isso para um casamento. É tido como tão pérfido que é inconcebível – até que aconteça. Ninguém está livre de ser traído ou de se sentir tentado a trair. Mesmo porque os casos extra-conjugais nem sempre são frutos de um relacionamento fracassado ou infeliz. Muitas vezes não passa de uma aventura, uma simples escapulida da vida cotidiana. Nem sempre é planejado ou feito de caso pensado. A ocasião faz o ladrão e o infiel. Algumas traições – acredito que a maioria – são passageiras, no afã do momento. É apenas o prazer em seu estado puro e simples, acompanhado de um leve sentimento de superioridade por possuir algo diferente do cônjuge, um segredo só seu. E o sexo, é claro. A traição à nação muitas vezes é apenada com a sentença de morte. Até no Brasil, em caso de guerra, a lei prevê que os traidores sejam fuzilados. Aos que faltam com a fidelidade no relacionamento não há punição alguma, o que gera um sentimento de impotência da parte traída. Se pudessem optar, acho que a maioria gostaria de vê-los apodrecer numa cela de 2 x 2 m até depois do fim da eternidade. E um pouquinho mais depois disso.
O sentir-se traído destrói a auto-estima. É um baque, um choque, uma afronta à dignidade. Não é fácil recuperar o amor-próprio após ser vítima desse golpe. A primeira reação é a raiva visceral. Um ódio cego, mortal. Lá se vão as roupas do traidor atiradas pela janela. Homens e mulheres reagem de maneira diferente. Os homens apunhalados pelas costas geralmente pensam em acabar com a cara do maldito que seduziu sua esposa. Consideram no íntimo que a amada foi uma vítima. A esposa – que conhece bem seu marido – credita a ele toda a culpa. Por incrível que pareça, os homens são mais propensos a perdoar. Mesmo porque muitos – pelo menos dos que conheço – já deram suas escapulidas enquanto casados e adotam a política da moeda trocada. Já as mulheres são mais reticentes quanto a isso. É delas a função de cuidar da casa, dos filhos e do marido. Muitas vezes elas contribuem ainda com parte significativa da renda. A traição deles é como dizer que elas falharam nessas tarefas. Pode não ser verdade, mas é o sentimento que fica. E como fica.
É raro, mas o perdão existe mesmo para esse tipo de comportamento. Conheço casais que superaram. Tudo bem, é só um, mas ele está lá, firme e forte. Mas a regra geral dita que a traição é uma pedra final no relacionamento. Sem confiança, como prosseguir? As promessas de amor, os planos para o futuro, os pequenos detalhes que os mantinham juntos passam a ser vistos como mentiras. A ambos resta ao sentimento de culpa. Por parte do traidor, por ter quebrado a aliança que unia o casal. Do traído, o que impera é a sensação de ter falhado total e completamente enquanto esposa/marido. Bom, posso deixar minha opinião pessoal acerca desse assunto. Já fui vítima e me senti assim também. No começo foi terrível. Devo ter planejado umas 20 maneiras diferentes de executar um duplo-homicídio. Depois vi que era besteira. Percebi ainda que não falhei. Quem falhou foi ela. Ela foi elo fraco nessa história toda. Enquanto eu a amava e entregava tudo que podia dar, ela, incapaz de retribuir, foi atrás do caminho mais fácil, um relacionamento sem responsabilidade real. Acabou que ela confessou e percebi o quanto ela era infeliz consigo mesma, mesmo antes do nosso relacionamento. Dei-lhe um meio perdão, não guardando raiva, mas também não retomando o relacionamento.
Percebi que o mais difícil depois disso tudo é confiar em alguém de novo. O medo de que aconteça uma nova traição é grande. Mas acredito também que não é porquê uma pessoa não foi honesta comigo as demais não serão. É como julgar a macieira por uma maçã podre. Devemos deixar com os traidores a culpa e nos sentir livres para amar de novo, para acreditar de novo. Nós não falhamos, eles que erraram e foram infiéis a eles mesmos, abrindo mão de suas promessas de honestidade e fazendo o contrário disso. Se tivessem coragem – porque no fundo todo traidor não passa de uma pobre alma covarde e assustada – teriam rompido o relacionamento antes de se aventurar com outra pessoa. Portanto, a quem foi traído deixo o conselho: não sinta raiva do mundo nem medo das pessoas. Mostre ao traidor tudo o que ele perdeu. Seja magnífico. Essa é a vingança mais terrível possível.